Ideia
Os comunitaristas argumentam que os indivíduos não são agentes de escolha autossuficientes, que existem antes da sociedade, mas são formados pelas comunidades — famílias, tradições, localidades, nações — em que vivem. Portanto, uma boa ordem política não pode ser neutra quanto à vida boa nem basear-se apenas em direitos; deve também cultivar significados partilhados, virtudes cívicas e responsabilidades, e proteger as instituições comunitárias que tornam possível a liberdade individual. No uso do século XIX, «comunitarista» descrevia aqueles que experimentavam a vida comunitária, como os owenistas e os fourieristas; a escola moderna é um movimento diferente, em grande parte filosófico e de políticas públicas.
Teoria
A crítica filosófica ao liberalismo
O comunitarismo moderno surgiu como reação crítica a A Theory of Justice (1971), de John Rawls. As suas principais figuras — Alasdair MacIntyre (After Virtue, 1981), Michael Sandel (Liberalism and the Limits of Justice, 1982), Charles Taylor e Michael Walzer (Spheres of Justice, 1983) — inspiraram-se sobretudo em Aristóteles e Hegel e não se autodenominavam comunitaristas; o rótulo foi-lhes atribuído por outros. Apresentaram três argumentos principais:
- O eu. Segundo Sandel, o liberalismo rawlsiano pressupõe um eu capaz de se distanciar de todos os seus fins — aquilo a que mais tarde chamou o «eu desimpedido» (1984). Observou que muitas vezes nos entendemos «como membros desta família ou comunidade ou nação ou povo» e que alguns vínculos são constitutivos, em vez de escolhidos. Taylor contestou a ideia de que as pessoas sejam autossuficientes fora da sociedade.
- Universalismo. MacIntyre e Walzer argumentaram que os padrões de justiça e virtude estão enraizados em tradições particulares e entendimentos partilhados, pelo que princípios universais abstratos descrevem incorretamente o raciocínio moral. Walzer propôs que diferentes bens — cuidados de saúde, cargos, dinheiro, amor — têm critérios distributivos distintos no seio de uma comunidade.
- Bens sociais. Taylor argumentou que alguns bens, como uma língua ou uma cultura, são irredutivelmente sociais e não podem ser assegurados apenas por direitos individuais.
Os liberais responderam que o valor fundamental é a capacidade de rever os próprios fins, e não escolhê-los a partir do nada, e Political Liberalism, de Rawls, reformulou a sua teoria como uma conceção política para uma sociedade pluralista. No início da década de 1990, o debate sobre o eu tinha, em grande medida, esmorecido.
Comunitarismo político
Na década de 1990, Amitai Etzioni, William Galston e outros lançaram um movimento «comunitarista responsivo», centrado nas políticas públicas. Argumentaram que o Estado social, os mercados livres e uma cultura fortemente orientada para os direitos tinham enfraquecido os laços familiares e locais, e defenderam um melhor equilíbrio entre direitos e responsabilidades. A sua revista, The Responsive Community, e uma plataforma de 1991 propunham medidas como o serviço nacional, o apoio às famílias biparentais, a educação do caráter, o policiamento comunitário e limites a certas reivindicações de privacidade e liberdade de expressão quando a segurança pública estivesse em causa. Os comunitaristas identificaram como merecedoras de proteção as comunidades ligadas a um lugar, à memória e as comunidades psicológicas de contacto direto.
Comunitarismo do Leste Asiático
Um debate distinto diz respeito aos «valores asiáticos». Os académicos distinguem a retórica governamental — usada para justificar restrições aos direitos — de argumentos ponderados, como os de Daniel A. Bell, segundo os quais o contexto cultural molda a forma como os direitos são hierarquizados e pode sustentar instituições específicas, incluindo câmaras meritocráticas inspiradas no confucionismo.
Exemplos reais
- Política da Terceira Via. Temas comunitaristas de direitos e responsabilidades influenciaram os governos de Bill Clinton e Tony Blair na década de 1990, incluindo condicionalidades de assistência social para inserção no trabalho e iniciativas de segurança comunitária.
- 'Grande Sociedade'. O governo britânico liderado pelos conservadores após 2010 promoveu a 'Grande Sociedade', transferindo serviços para organizações comunitárias e voluntárias, ideia que críticos consideraram uma cobertura para cortes de gastos.
- Singapura. O Livro Branco sobre Valores Compartilhados de 1991 estabeleceu que a 'nação vem antes da comunidade e a sociedade acima do indivíduo', um comunitarismo oficial criticado por legitimar restrições às liberdades políticas.
- Instituições comunitárias. Fundos comunitários de terras, conselhos de bairro, moedas locais e cooperativas são frequentemente justificados em termos comunitaristas como formas de reconstruir a solidariedade local.
- Subsidiariedade. A doutrina social católica e o princípio da subsidiariedade da União Europeia compartilham a preferência comunitarista por decisões no nível mais baixo que seja eficaz.
Críticas
- Conservadorismo e conformidade. Críticos argumentam que o comunitarismo idealiza comunidades historicamente hierárquicas, patriarcais ou excludentes; Elizabeth Frazer argumentou que a 'comunidade' foi usada para justificar a hierarquia e deslegitimar o conflito.
- Qual comunidade? Indivíduos modernos pertencem a muitas comunidades sobrepostas, com demandas conflitantes; o comunitarismo oferece pouca orientação sobre como resolver esses conflitos ou proteger dissidentes dentro das comunidades.
- Nostalgia. O ideal de MacIntyre de uma comunidade pré-moderna e abrangente parece inadequado para sociedades grandes, industriais e plurais.
- Relativismo. Fundamentar a justiça em entendimentos compartilhados traz o risco de endossar práticas injustas que uma comunidade por acaso aceita; o exemplo de Walzer do sistema de castas indiano foi amplamente criticado.
- Imprecisão das políticas. O comunitarismo político foi criticado por ser um conjunto de exortações morais, facilmente apropriado por governos para transferir a responsabilidade por problemas sociais para as famílias e os voluntários.
Resultados
Como movimento filosófico, o comunitarismo transformou o liberalismo mais do que o substituiu: Rawls, Ronald Dworkin, Will Kymlicka e outros incorporaram preocupações com a comunidade, a cultura e a virtude cívica, e os debates sobre multiculturalismo, nacionalismo e educação cívica dão continuidade aos argumentos comunitaristas. Como programa político, sua influência foi difusa — absorvida por agendas da Terceira Via e de centro-direita — e seu histórico é misto: o policiamento baseado na comunidade e a descentralização local produziram alguns êxitos, enquanto a retórica da 'responsabilidade' também foi usada para justificar condicionalidades na assistência social e cortes.
Para o desenho da governança, o legado comunitarista é um lembrete de que as instituições dependem de capital social e identidades compartilhadas que elas próprias não criam, e que regras formais importadas sem consideração pelos significados locais muitas vezes fracassam. Seus limites estão na proteção dos indivíduos e das minorias contra suas próprias comunidades, o que, segundo os liberais, exige direitos que as comunidades não possam revogar.
Leitura complementar
- Daniel Bell, 'Comunitarismo', Stanford Encyclopedia of Philosophy
- Alasdair MacIntyre, After Virtue (1981)
- Michael J. Sandel, Liberalism and the Limits of Justice (1982)
- Michael Walzer, Spheres of Justice (1983)
- Amitai Etzioni, The Spirit of Community (1993)
Relacionados
Afirmações
O comunitarismo moderno surgiu como reação crítica a A Theory of Justice, de Rawls; suas principais figuras — MacIntyre, Sandel, Taylor e Walzer — recorreram a Aristóteles e Hegel e não adotaram elas próprias esse rótulo.[1]
Os comunitaristas políticos da década de 1990, entre eles Amitai Etzioni e William Galston, argumentaram que o Estado de bem-estar social, os mercados livres e uma cultura fortemente centrada nos direitos haviam enfraquecido os laços familiares e locais.[1]
Sandel argumentou que o liberalismo rawlsiano se baseia numa concepção excessivamente individualista do eu, negligenciando vínculos — «como membros desta família ou comunidade ou nação ou povo» — que em parte constituem quem somos; mais tarde, chamou esse eu liberal de «desimpedido».[1][2][3]
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